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dicionário das artes
domingo: 23 de agosto

Antes de existirem aplicativos de mensagens, antes dos e-mails e das chamadas de vídeo, havia as cartas, e poucas histórias mostram o peso de uma carta de amor melhor do que O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez.
Publicado em 1985, o romance acompanha Florentino Ariza e Fermina Daza, dois jovens que se apaixonam, trocam cartas apaixonadas e são separados pelo pai dela, que reprova o relacionamento.
Fermina acaba casando com outro homem. Florentino, por sua vez, espera… por cinquenta e três anos, sete meses e onze dias.
ENSAIO ABERTO
Dicionário das Artes

(Imagem: Pinterest)
Você já deixou de entender uma conversa sobre arte porque parecia que todo mundo estava falando outra língua?
Vernissage, site-specific, ready-made… Muitas palavras usadas no mundo das artes parecem mais complicadas do que realmente são — e, às vezes, acabam afastando justamente quem gostaria de se aproximar.
Por isso, hoje eu resolvi montar um pequeno Dicionário das Artes.
Começando por vernissage, que é o nome dado à abertura de uma exposição, geralmente destinada a convidados, à imprensa e a colecionadores.
Mas a origem da palavra é ainda mais interessante.
Ela vem do francês vernir, que significa “envernizar”. Antes de uma exposição abrir oficialmente ao público, artistas costumavam convidar algumas pessoas para acompanhar o momento em que davam a última camada de verniz às obras.
O costume mudou, mas o nome ficou. E, se existe uma palavra para a abertura, também existe uma para o final… finissage.

(Imagem: Pinterest)
É o evento que marca o encerramento de uma exposição — basicamente, o oposto da vernissage.
Agora, se você entrar em uma galeria e ler que determinada obra é site-specific, isso significa que ela foi pensada especialmente para aquele lugar.
O artista considera a arquitetura, a escala, a história e o contexto do espaço. Ou seja, não é simplesmente pegar a obra, colocá-la em outro museu e esperar que ela continue significando exatamente a mesma coisa.
E, por último, uma das minhas favoritas: ready-made. É quando um artista pega um objeto comum, já existente, e o transforma em arte simplesmente ao escolhê-lo e colocá-lo em um novo contexto.
O exemplo mais famoso é A Fonte, de Marcel Duchamp. Sim, o famoso urinol.
Duchamp não esculpiu o objeto, mas escolheu um objeto cotidiano e basicamente perguntou: “Se eu, como artista, digo que isso é arte… isso passa a ser arte?”
E, mais de cem anos depois, a gente ainda está discutindo a resposta.

(Imagem: Pinterest)
No fim, talvez entender arte não seja sobre conhecer todas essas palavras difíceis.
É perceber que, por trás delas, existem ideias bem mais simples — e histórias muito mais interessantes.
E, para você: qual outra palavra merece entrar no nosso Dicionário das Artes?
Com carinho,
Luiza Adas.
AUTOR
Luiza Adas

Especialista em Teoria e Crítica de História da Arte, Luiza pesquisa, produz conteúdos e desenvolve projetos sobre artistas, museus, exposições e tudo o que envolve o universo das artes visuais. É criadora do Clube da Arte, projeto que se articula como um clube do livro, mas é focado em experiências de arte. Também fundou o @museu.do.agora, página que compartilha reflexões contemporâneas acerca da arte.
GIRO CULT
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📚 Esta revista traz uma ficção afiada sobre a mercantilização e o peso do significado das palavras.
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BASEADO EM UMA HISTÓRIA REAL
A caixa no fundo do armário

(Imagem: Pinterest)
Lívia achava que conhecia bem a avó.
Aos 90 anos, Dona Luzia ainda se lembra de coisas que a própria neta provavelmente já teria esquecido. Do cheiro da feira de Caicó. Da roupa que usou em determinado baile. Do nome do cachorro de uma vizinha da infância.
Mas havia uma história que ela nunca tinha contado — e ela estava guardada no fundo de um armário.
Foi numa tarde qualquer, enquanto ajudava a organizar o quarto da avó, que Lívia encontrou uma caixa de madeira escondida debaixo de um cobertor.
Dentro, havia um maço de cartas amareladas, escritas numa caligrafia que ela não reconhecia. O português parecia estranho: correto em alguns lugares, hesitante em outros. Era como se aquelas palavras tivessem sido escritas por alguém que ainda estava aprendendo o idioma.
Dona Luzia ficou em silêncio quando viu as cartas. Depois, sorriu daquele jeito de quem voltou, por alguns segundos, para algum lugar muito distante.
Rio de Janeiro. 1958.
Luzia tinha pouco mais de vinte anos quando sua família deixou Caicó, no interior do Rio Grande do Norte, e se mudou para o Rio de Janeiro. Foi lá que, um dia, encontrou um homem perdido na rua, com um mapa nas mãos.
O nome dele era Cornelis. Holandês, estava no Brasil a trabalho por algum tempo. O que deveria ser apenas uma indicação de caminho virou uma conversa de quase uma hora, em pé, na calçada.
Depois, veio outra conversa — e outra. Até que os encontros passaram a acontecer quase todos os dias num café do bairro.
Cornelis carregava um caderno onde anotava palavras em português. Luzia corrigia a pronúncia. Ele tentava novamente; ela ria. E, entre uma palavra e outra, os dois foram inventando uma língua que não precisava de tradução.
Vieram os passeios pelo Rio, os bailes, a orla, as tardes que pareciam durar mais do que deveriam.
Mas Cornelis não havia ido ao Brasil para ficar. No final daquele ano, antes de partir, arrancou a última página do caderninho onde aprendera português, escreveu seu endereço e a entregou para Luzia.
— Me escreva.
Ela escreveu.
Durante dois anos, o amor dos dois coube em envelopes que atravessavam o Atlântico. Cornelis escrevia sobre a Holanda, o inverno e as tulipas. Luzia respondia falando do calor, da família e da saudade de Caicó.
Até que, em 1960, chegou uma carta diferente.
Cornelis havia conhecido alguém.
Luzia leu tudo três vezes, dobrou a carta, colocou-a junto das outras dentro da caixa de madeira e não respondeu.
A vida continuou. A família voltou para o Rio Grande do Norte. Luzia conheceu outra pessoa, casou-se, teve filhos e construiu uma vida feliz ao lado do homem que Lívia conheceria simplesmente como avô.
Cornelis virou uma história que ninguém sabia que existia.
O avô de Lívia morreu em 2017. A caixa continuou no fundo do armário.
Quando perguntou por que a avó nunca havia jogado aquilo fora, talvez Lívia esperasse uma grande explicação.
Dona Luzia amou o homem com quem construiu sua vida. Foi feliz ao lado dele. E também, quando tinha pouco mais de vinte anos, esperou durante dois anos por envelopes que atravessavam o oceano.
Uma coisa não apaga a outra.
Nossos avós tiveram vidas antes de existirmos para testemunhá-las. Foram jovens. Dançaram em bailes. Apaixonaram-se por pessoas com quem não ficaram. Guardaram cartas.
Lívia entrou naquele quarto achando que conhecia Dona Luzia. Saiu entendendo que conhecia apenas algumas das mulheres que sua avó havia sido.
EXTRA
“Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelhecí: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias
(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.
A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
"Deus te abençoe", e a noite abria em sonho.
É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.”
— Carlos Drummond de Andrade
EM CARTAZ
Nos cinemas ou no conforto do seu sofá

(Imagem: Divulgação)
Enquanto a Tropicália, os Novos Baianos e a contracultura dos anos 1970 reinventavam a identidade do Brasil sob a sombra da ditadura militar, os filhos dessa geração testemunhavam tudo pelo buraco da fechadura.
O documentário Nem Tudo É Paz E Amor resgata essa atmosfera fervilhante para examinar, sem filtros, a beleza, as rupturas e o caos de crescer no epicentro de uma liberdade sem limites.
Com um olhar afiado que exalta o Cinema de Invenção, a obra utiliza a música e a ironia para fugir da simples nostalgia histórica. O longa chega aos cinemas em 27 de agosto com uma pergunta provocativa: quanta coragem é necessária para encarar as marcas e os privilégios de ter sido criado no meio de uma revolução artística?
Confira os principais lançamentos da semana:
Nosso Segredo — 27 de agosto, nos cinemas
Ponto Sem Retorno — 27 de agosto, nos cinemas
Um Olhar Inquieto: O Cinema De Jorge Bodanzky — 27 de agosto, nos cinemas
Homem que Sussurra — 28 de agosto, na Netflix
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