escrito por uma mulher

domingo: 31 de maio

 

Em 1995, Richard Linklater lançou Antes do Amanhecer, um filme sobre dois estranhos que se conhecem em um trem pela Europa, passam a noite inteira conversando por Viena e sabem, desde o início, que aquilo tem hora para acabar.

Sem vilão, sem conflito externo. Só duas pessoas e a consciência silenciosa de que aquele encontro é inevitavelmente passageiro.

Linklater disse que quis capturar algo que todo mundo já sentiu, mas raramente vê nas telas: a melancolia de um encontro perfeito que já nasce temporário.

Você já amou alguém que não ficou?

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THE BIG PICTURE

"Ser vista não é o mesmo que ser compreendida."

(Imagem: Pinterest)

Nos últimos anos, a internet desenvolveu uma obsessão quase coletiva pelos chamados book boyfriends e TV boyfriends.

Homens sensíveis, atenciosos e emocionalmente disponíveis. Personagens que sabem ouvir, respeitar e cuidar… Tudo aquilo que muita gente gostaria de encontrar fora da ficção.

E, se você passou algum tempo no TikTok recentemente, provavelmente também já leu a frase que acompanha muitos desses personagens: Esse homem foi escrito por uma mulher.

Mas, afinal, o que isso significa?

Tudo começou com personagens literalmente escritos por mulheres. Os personagens de Jane Austen, das irmãs Charlotte Brontë e Emily Brontë, de Louisa May Alcott e muitos outros.

(Imagem: Pinterest)

Homens capazes de demonstrar afeto sem transformar sensibilidade em fraqueza. Com o tempo, o termo deixou de falar sobre autoria e passou a definir uma estética masculina.

Harry Styles, por exemplo, é chamado de “escrito por uma mulher” por usar roupas andróginas e demonstrar sensibilidade emocional.

A expressão virou uma forma de dizer: esse homem desafia o que tradicionalmente se espera de um homem.

E então veio o passo seguinte. Mulheres começaram a postar vídeos dos próprios namorados cozinhando, limpando a casa ou cuidando de crianças com a legenda: “ele foi escrito por uma mulher.

(Imagem: Pinterest)

O que antes parecia uma análise cultural virou elogio — e, para muita gente, também provocação.

Se o básico ainda surpreende, o que isso diz sobre a média?

Nos anos 1970, a teórica Laura Mulvey cunhou o termo male gaze para descrever a forma como o cinema hollywoodiano costumava enxergar mulheres.

Corpos fragmentados pela câmera. Mulheres observadas o tempo inteiro — raramente compreendidas.

O female gaze propõe justamente o contrário: histórias em que mulheres existem para além do olhar lançado sobre elas.

Sofia Coppola costuma ser citada como exemplo. Em Encontros e Desencontros, Maria Antonieta e As Virgens Suicidas, a câmera parece mais interessada em entender como aquelas mulheres se sentem na intimidade do que apenas observá-las.

Solidão, desejo, melancolia e deslocamento.

Mas existe uma armadilha nesse debate.

Female gaze não é necessariamente sobre quem escreve. Muitos romances contemporâneos escritos por mulheres — e frequentemente celebrados como feministas — continuam romantizando homens possessivos, controladores e emocionalmente abusivos.

O motivo: mulheres também cresceram consumindo narrativas moldadas pelo olhar masculino. E isso inevitavelmente atravessa a forma de escrever, os desejos e os tipos de relação que continuam sendo romantizados.

  • É sobre a forma como mulheres são vistas — e permitidas existir — dentro de uma narrativa.

E o que a trend realmente revela é isso: não apenas um desejo por personagens fictícios perfeitos, mas por relações em que mulheres sejam sujeitos, não objetos.

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BASEADO EM UMA HISTÓRIA REAL

Para Paris, com amor

(Imagem Pinterest)

Tayná nunca havia se apaixonado de verdade — e não foi por falta de oportunidade.

Ao longo da vida, os pretendentes apareceram de todos os tipos, origens e estilos, mas nenhum fez seu coração acelerar. Nenhum fez o tempo parar.

Havia namorado uma vez, por dois anos, e só ao terminar admitiu para si mesma o que sempre soube: o que sentia era carinho de amizade, não amor.

Então, foi para Paris, cidade conhecida mundialmente como a capital do amor.

Engenheira ambiental nascida em Franca, interior de São Paulo, Tayná estava em duplo diploma na França quando a amiga Thaís a levou a um culto evangélico num domingo qualquer.

  • Naquele dia havia um brasileiro novo por ali: João Vitor.

Conversaram pouco. Nenhum interesse de nenhum dos lados.

Semanas depois, Tayná foi sozinha ao culto. Ao final, ouviu alguém chamá-la em português no meio da multidão. Era ele. Trocaram Instagram e depois WhatsApp.

As conversas eram esporádicas, sem qualquer intenção romântica. Até que, em abril de 2024, veio o convite para visitar o Jardim de Claude Monet, em Giverny.

Foi ali, naquele jardim de flores e luz, que ela o olhou diferente pela primeira vez. João Vitor havia acabado de comprar uma câmera profissional e fotografava tudo com a atenção de quem enxerga beleza onde outros não veem.

O que seguiu foram semanas de encontros que pareciam casuais — e não eram.

  • O Centro Pompidou, onde conversaram, riram e, por um momento, improvisaram um diálogo como se já fossem um casal.

  • Um almoço na casa dela — doze metros quadrados de quarto estudantil — onde ficaram horas juntos sem precisar de nada além da presença um do outro.

  • A casa dele, onde João cozinhou picanha com risoto, abriram champagne, assistiram a um filme, jogaram cartas e dançaram lentamente ao som de “Tuyo”, música da série Narcos, até que aconteceu o único beijo que teriam.

No parque de Vincennes, remando numa canoa, ele olhou para ela com o sol no rosto e disse, com uma voz doce: “Não consigo me concentrar. O sol está batendo em você. Você está muito linda.” Tayná tem o vídeo — e o reviu inúmeras vezes.

Em maio, ela precisou se mudar para Montpellier para um estágio. As mensagens foram ficando mais escassas e o esfriamento chegou sem aviso.

Tayná esperava as respostas com uma ansiedade que nunca havia sentido antes e, pela primeira vez na vida, conheceu a dor no peito do amor não correspondido.

Pediu para se despedirem antes de partir. Ele respondeu: “vou ver se dá.

  • Uma semana antes, havia escrito que ela tinha “todo o tempo que quisesse da minha agenda.

Tayná foi para Montpellier. Chorou diariamente. Escreveu no diário todos os dias. E escreveu para ele uma carta que nunca enviou — a mais bonita de todas, segundo ela própria.

Paris continuou. Após um ano, João Vitor começou a namorar e, algum tempo depois, pediu a namorada em casamento.

No carrossel de fotos do pedido, os dois usavam o mesmo modelo de Vans: preto e branco. O mesmo que ele uma vez disse amar. O mesmo que Tayná usava quando ele a fotografou.

Tayná conheceu a nossa página graças a ele. E escreve agora porque, quem sabe, por ironia do destino, ele ainda possa ler.

Há histórias que não chegam a virar relacionamento, que não têm data oficial de começo ou fim. Elas existem em jardins de flores, em vídeos revistos às escondidas, em músicas que passam a significar alguém.

Paris guardou a história de Tayná — e talvez guarde milhares delas.

E talvez seja por isso que a chamem de cidade do amor: não por criar finais felizes, mas por não deixar certos sentimentos irem embora por completo.

EXTRA

“Todas as cartas de amor são
ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem
ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
como as outras,
ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
têm de ser
ridículas. (…)”


— Fernando Pessoa,
sob o heterônimo de Álvaro de Campos

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EM CARTAZ

Nos cinemas ou no conforto do seu sofá

(Imagem: Divulgação)

Um dos heróis mais poderosos da cultura pop se prepara para sua aguardada estreia em 3 de junho nos cinemas — para o delírio dos pais de muitos dos seus amigos. rs.

O aguardado live-action de Mestres do Universo traz He-Man (Nicholas Galitzine) enfrentando o maligno Esqueleto (Jared Leto) para salvar o planeta Eternia e proteger os segredos do Castelo de Grayskull, apostando em uma explosão de cores vibrantes e cenários práticos após anos longe dos cinemas.

Confira os principais lançamentos da semana:

  • Not Suitable for Work — 02 de junho, na Disney+.

  • Michael Jackson: O Veredito — 03 de junho, na Netflix.

  • 100 Noites De Desejo — 04 de junho, nos cinemas.

  • Cabo do Medo — 05 de junho, na Apple TV+

  • Entrevista com o Vampiro (3ª temporada) — 07 de junho, no Prime Video.

BÔNUS

O primeiro amor

(Imagem: Arquivo pessoal)

Sophia foi o primeiro grande amor da infância de Ana — e também seu primeiro bichinho de estimação.

Ela chegou em um Dia das Crianças, depois de um passeio no parque de diversões. Ana tinha 6 anos e sonhava em ganhar um cachorro. Até encontrar aquela gatinha.

  • O nome era Sophia, mas o pai começou a chamá-la de “Rumão”, pois era exatamente assim que ela miava. Com o tempo, ela passou a responder apenas pelo apelido.

Sophia esteve na vida de Ana dos 6 aos 15 anos. Cresceram juntas… até que, um dia, Sophia desapareceu.

A família procurou por ela durante meses. Chamaram seu nome pela vizinhança, esperaram ouvir seu miado no portão mais uma vez — mas Sophia nunca voltou.

  • Depois dela, vieram Pokémon e Frajola, os gatos que acompanham Ana até hoje.

E existe um detalhe que ainda emociona a família: quando Ana chama pelo nome de Sophia, os dois começam a procurá-la pela casa — como se também sentissem falta daquela que começou tudo.

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FINAL NOTES

A próxima pode ser a sua 💌

Gostou da história que leu? A próxima pode ser a sua. Conte pra gente aquela história de amor que só você sabe e tem dentro de si. Afinal, todo mundo tem a sua.

Envie para: [email protected]

Queremos compartilhar, pelo menos um pouquinho, desse sentimento que você tem aí dentro. Você nunca sabe o que ele pode provocar nas pessoas…

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